Inner Voyages Between Our Shadows
Lançado em:

2002


#

Nome

Tempo

1

Prayer for a New Meeting

14:00

2

The Gate

09:15

3

Forgiveness

11:36

4

Scenes of Wondering Beyond

12:06

5

Babel Tower

07:26

6

A Night on Bald Mountain

19:29

Prayer For a New Meeting (Prece por um novo Encontro)

Esta é a história de um casal separado pela morte, cuja esposa sobreviveu ao marido. O marido, ainda inconformado com a separação, tenta convencer a mulher a juntar-se a ele no Hades. O uso do termo “Prayer” é propositalmente conflitivo com a situação apresentada, supostamente equívoco, apenas para acirrar o conflito das personagens em termos semânticos. Isso pois ninguém, em sã consciência, “reza”, de verdade, pedindo pela morte de outro ser, ainda mais do ser amado. Mas essa é a vontade da alma inquieta e inconformada dum homem morto e ainda apaixonado, frustrado pelo fim de um convívio que pretendia eterno, tão eterno quanto ele o quer novamente transformar ao tentar trazer sua amada para si com a morte dela. Por outro lado, na ótica particular a essa canção, a morte física é apenas uma barreira, um separador entre mundos, e não um conceito finalizador, radical e definitivo. De um modo mais sutil, no caso da Prayer, é o amor que permanece além da morte, sentimento de tal modo transcendente que ignora e desrespeita limites físicos tão óbvios (embora os reconheça, no incitamento à queda).

As partes musicais

Parte 1: A Dance Party She Attended (instrumental)
(Uma festa dançante na qual ela esteve)
O título situa o contexto: ela foi a uma festa com música pra dançar (um baile).

Parte 2: The Bumpy Road Back Home (instrumental)
(A estrada acidentada de volta ao lar)
O retorno para casa é feito por uma estrada esburacada.

Parte 3: Longing and a Wish
(Saudade e um desejo)
O marido tem saudades, faz reminiscências, filosofa e começa a tentar convencer sua viúva a ir juntar-se a ele.

Parte 4: Echoes of The Fall / Tango for One (instrumental)
(Ecos da queda / Tango para um)
O solo de guitarra evoca a queda na imaterialidade, e o “tango para um” é o resumo de um ato amoroso falho em princípio pela falta do alter elemento.

Parte 5: Bitterness
(Amargor)
O morto tem um rasgo de consciência da crueldade egoísta da proposta feita à esposa, e pede para que o delírio e a loucura se afastem de sua mente.

Parte 6: Lure
(Feitiço)
Ainda assim, insidioso, continua a seduzir sua viúva, que o vê e ouve adormecida, num sonho.

Parte 7: In Answer
(Em resposta)
Ela responde, realista, e procura confortar e tranquilizar a alma inquieta do marido morto.

Parte 8: Deceit
(Decepção)
Nenhuma fé pode sondar o destino, uma vez que aparentemente o segredo da união eterna partiu-se com uma morte, diz o marido, inseguro de que sua viúva possa achar consolo eventual. Permanece o desejo do reencontro, da reunião, para o qual, enquanto existe Amor, nunca é tarde e nem a Morte é barreira.

The Gate - An instrumental Tale by Aether (O Portal - Um conto instrumental)

Esta música / conto possui duas conotações, pode-se até dizer que descreve duas estórias simultaneamente, de acordo com o que o ouvinte “queira ouvir”. A primeira, conceitualmente gira em torno da busca aventuresca do desconhecido, de um mágico Portal, e passa-se no inicio da década de 50 (detalhe: as duas fotos do encarte foram realmente tiradas em 1951).
A segunda estória caracteriza a busca de um Portal Interior, um novo estado de consciência, uma nova condição existencial.

As partes musicais
Part 1: The Secret´s Revelation
(A revelação do segredo)
Conto 1: A descoberta do mapa para alcançar o Portal - As disputas pelo mapa

Conto 2: A descoberta das chaves mágicas, dos processos de interiorização -
O Discípulo em face do seu Portal

Part 2: The Trip Adventure
(A aventura da viagem)
Conto 1: O desenrolar da aventura e os percalços do mapa.

Conto 2: A busca e a preparação. As inseguranças e dúvidas.
As perguntas e respostas. A Luz e a Escuridão.

Part 3: Rota Incognita
(Rota desconhecida)
Conto 1: O encontro com o desconhecido.

Conto 2: O encontro com o desconhecido. O embate entre a Luz e a Escuridão.

Part 4: Reaching the Gate
(Alcançando o Portal)
Conto 1: O desenrolar final da aventura: O encontro do Portal.
O último instante da música é aquele no qual o Portal se fecha.

Conto 2: O discípulo frente ao Mestre. O encontro das verdades eternas.
A compreensão das respostas.
O último instante da música é aquele no qual o Portal se rompe.

Forgiveness (O Perdão)

Forgiveness lida com o conceito do perdão e a necessidade de sua concessão para a solução de pendências vitais, de como a concessão do perdão pode ser importante para que se possa levar a vida adiante de uma forma mais leve, sem que se traga na mente, como um pesado fardo imobilizador, todo o mal feito a alguém ou, pior, tudo aquilo que atinja alguém como maldade sem que sequer tenha sido essa a intenção de quem os terá atingido.
Na verdade, é uma espécie de hino ao não conformismo, embora possa parecer o contrário. Em ultima análise, que diferença irá fazer para a resolução de um conflito qualquer o fato de carregar esse conflito na cabeça como uma chaga, simplesmente?
O perdão abre espaço na memória para uma nova visão sobre o passado, o presente e o futuro das vidas. Uma vez que não se pode mudar o passado, seria desejável aprender-se a conviver com seus reflexos de forma produtiva no presente de modo a tentar adquirir uma nova visão, outro enfoque, para não perder novas oportunidades no futuro devido a coisas que não mais podem ser modificadas.
Nós, ao contrário, podemos nos modificar continuamente, e devemos lutar para sempre fazê-lo de modo a que possamos melhorar.
No caso da Forgiveness, o perdão possui, em si, uma notável capacidade de suprir elementos de transcendência, uma vez que será capaz de colocar aquele que o concede além de limites impostos por uma prisão auto-imposta - no interior de eventos passados, sucedidos, no presente, apenas na cabeça de quem os repita, sempre e sempre, como mágoa, rancor - ódio, enfim.
Ali ele aparece como um elemento capaz de retirar o ser humano do torpor de uma inércia feita de conceitos culturais tacanhos, meramente herdados sem que sobre eles se considere (pense) mais do quanto ao simples reconhecimento tácito (aceitação passiva) de que isso ou aquilo teria de ser como é, não teria jeito.

As partes musicais

Part 1: Stoop to Anger (Instrumental)
(De joelhos ante à raiva)
É como se mostra aquele que prefere odiar a perdoar.

Part 2: Parade of Fools
(Marcha de Tolos)
Um diálogo travado entre um elemento esperançoso e um desesperançado, em que o primeiro inicia, nas duas primeiras estrofes, o desesperançado responde-o, nas três seguintes, e o primeiro prossegue nas duas últimas, em que descreve ao outro que o vê dentre os elementos de uma marcha de tolos, enquanto ele mesmo se encaminha para juntar-se a ela.

Part 3: Forgiver´s Dance (Instrumental)
(Dança do perdoador)
A alegria repetida daquele que soube perdoar.

Part 4: Second Thoughts (instrumental)
(Considerações sobre idéia)
O pensamento em movimento acerca duma mesma idéia, a de uma vida insatisfatória, provocado pela visão da alegria.

Part 5: Fair Warning
(Justo aviso)
Aquele que aprendeu o valor do perdão alerta sobre seus benefícios, ainda numa dança, algo mais contida.

Part 6: Forgiver´s Dance (Reprise) (Instrumental)
(Dança do perdoador)
Dado o alerta, a volta à delícia da dança.

Part 7: Thinking On (Instrumental)
(Ainda em considerações)
A dúvida sobre uma solução apontada ainda move uma das mentes, mas o caminho está sempre aberto.

Scenes of Wondering Beyond (Cenas de considerações no além)

Scenes fala de transcendência, da capacidade que a natureza possui, e nos concede, de fazer com que a raça se perpetue, com que nossa herança (genética, cultural etc.) se faça presente em nossa descendência, dando-lhe um carater de permanência, de imanência, até, que nos tornaria, de certo modo, eternos.
Outra das manifestações humanas que pode conceder eternidade é a arte, uma vez devidamente registrada, produzida, distribuída e disseminada - algo que vá ao ar no rádio uma única vez, por exemplo, viaja pelas estrelas eternamente, sem limites físicos.
O único limite é a não criação, o medo de ousar, a falta de iniciativa, enfim uma arte que não se faça presente no contexto contemporâneo de sua existência (pode até ser descoberta, tempos depois, mas aí já não terá sido o artista criador aquele responsável pela sua própria cria lançada).

As partes musicais: o texto por trás da letra
Part 1: A Son to Live On
Uma chance é dada a quem está prestes a procriar: a de melhorar como ser humano. Por isso, a vida nos apresenta renovadas oportunidades e chances de novamente crescer espiritualmente. Oportunidade de afastar-se da prática de ações erradas que nada de bom trouxeram, numa corrida solitária do nada a lugar nenhum.

O caminho ideal a ser trilhado pelo futuro pai seria necessariamente o da virtude, idealmente, sem a necessidade de apegos religiosos, de modo a voar, livre, de acordo apenas com a própria natureza, instado pela premência dum ato tão forte dessa mesma natureza quanto é a existência de descendência. O renovado brilho do sol após cada noite, a extração de cores da luz solar através do prisma de chuva seriam como exemplos de que o caminho natural existe e é belo, pleno.

Com toda a vontade (um dos sentidos substantivos do termo “will”), se é confrontado com a doçura de um filho, e, além do moinho da vida, que muitas vezes nos tritura as esperanças, começamos a sondar acerca de qual será o destino a ser por nós criado, dado e compartilhado com aquela criança.

Durante a sua vida (dele), muitos irão e virão - assim como foi nas nossas -, por vezes surgirá tristeza, insegurança, mágoa e até desespero. De qualquer maneira, a natureza do tempo é fazer com que o crescimento ocorra e que nós, pais, o possamos acompanhar até um dado limite - o de nossas próprias vidas. Em circunstâncias normais, um filho terá necessariamente mais tempo que o pai.

Uma das coisas que a descendência faz conosco é nos confrontar com nosso próprio processo de envelhecimento - quanto mais ele cresce, mais nos aproximamos do fim (ele idem, decerto). As vezes não sabemos como lidar com isso, como lidar com nossa autodependência e ainda com mais alguém a depender inteiramente de nós. Não haveria um único caminho, a atenção à dialética do processo seria aquilo que melhor nos poderia preparar para lidar com isso com alguma desenvoltura. Afinal, mais dia, menos dia, nosso filho irá partir para sua própria aventura na vida, tenhamos nós errado com ele ou não.

O “testamento” (ou “legado”, outro dos sentidos substantivos de “will”) está escrito pela natureza: o legado da vida será, eternamente, o único que todos os pais de todos os tempos terão deixado, deixam e deixarão aos seus filhos. E a ele, filho, foi dada vontade, decisão, determinação (outros dos sentidos da palavra “will”) para que nalgum dia ele se vá, por si só, para lidar com a própria vida como tal.

Part 2: Walk of Life (instrumental):
A levada desse trecho tem uma atitude de caminhada, com altos e baixos, desencontros, pequenos tropeços, quedas e retomadas. Culmina numa dramática introdução ao que seria a parte seguinte.

Part 3: Chase from Death (instrumental)
A levada dessa parte é característica de uma certa aceleração, na tradução de uma ansiedade no trato com a inexorabilidade de nosso destino comum - como idas e voltas, em círculo, na tentativa de evitar a chegada a um único e inevitável destino.

Part 4: Final Rest (Instrumental)
O destino final, traduzido em totais paz e quietude.

Part 5: A Doubt to Live in
Ao mesmo tempo que concede o desfrute da vida em seu decorrer, o tempo mede a extensão desse decurso. Eterno, como entidade universal, encerra-nos em si, encerra-se para nós e permanece imutável em seu decurso infinito, sem nele haver um ponto qualquer cuja existência aponte qualquer modificação na forma como transcorre. O tempo ignora-nos por completo, é como uma ave de rapina, à espreita da transformação de vida em morte. Reza-se para que seja extenso o tempo a nós concedido pelo Tempo, mas sabe-se que este não poderá ir além do limite determinado pelo momento em que não mais possamos acompanhar o seu decorrer - e este decorrer, portanto, já não mais nos afete em nada. Para que rezar, então?

Existe uma dúvida razoável acerca da continuidade da vida após a morte (vida eterna), sendo esta eternidade uma presunção cuja razoabilidade não iria além de mera expectativa favorável. Contudo, essa extensão é tudo aquilo em que se pensa quando se está no limiar (ou o tempo todo, porque nunca sabemos quando a foice nos abaterá). A Eternidade “humana” se faz através dos filhos e realizações. Daquilo que legamos e realizamos.

No fim, quando a vida é confrontada com a morte, tudo que ocorreu enquanto perdurou esvai-se e se evanesce em um átimo, passando a fazer parte de um registro não efetuado, abandonado além do tempo e da matéria. Além da maia humana.

Babel Tower (Torre de Babel - Instrumental)

Assim como The Gate, Babel Tower possui duas conotações: uma social e outra de ordem filosófica. Para a visão social podemos tomar duas situações: a visão bíblica convencional e uma visão social moderna. Não importando qual das três situações o ouvinte preferir “escutar”, o discurso musical procura representar as tensões, dúvidas, buscas, encontros e desencontros, reencontros, a vivência individual e social, a evolução dos processos sociais e individuais.

As partes musicais: O texto por trás da música

Part 1: Questions? Os questionamentos individuais. A solidão do Um no Grupo. A busca do veículo de expressão e intercompreensão. A auto procura. A busca de seus pares. A tentativa de entendimento: Lei Imutável ou o Eterno Ciclo de Evolução Individual?

Part 2: Thounsand Minded Dark City Os questionamentos do grupo, da sociedade. A solidão do Todo no Grupo. As tensões e pressões sociais. A Torre de Babel social. Se cada um possui um idioma próprio, como integrar? Como entender o “idioma” do todo?

Part 3: Human Abstraction O ser humano e o eterno reencontro. A busca e o entendimento das Verdades Eternas. A abstração da Individualidade.

A Night on Bald Mountain (Uma noite em Monte Calvo)

Esta suite foi concebida através da montagem de 5 partes onde a primeira e a última (início e fim) seguem fielmente a partitura de Uma Noite em Monte Calvo de Modest Mussorgsky, que baseou-se em um conto popular sobre uma noite especial do ano, em que todas as bruxas, gnomos, duendes, seres da noite, se reuniriam em uma montanha (Monte Calvo) com o objetivo de realizar um enorme sabbath. A idéia musical apresenta o confrontro entre o Bem e o Mal em toda a sua fúria, que porém, com a chegada do Dia (parte 5), a Luz, que a tudo invade de forma plácida porém definitiva, de forma suave porém irrevogável, dissolve todos os miasmas deixados pelo terrível sabbath, afasta todas as sombras deixadas pela Escuridão, faz brotar a Vida das cinzas da Morte.

As partes 2 e 4, Night Tale e Night Tale Reprise, são de composição de Jim Cuomo do Fire Ballet, banda progressiva canadense da década de 70 que gentilmente nos autorizou a sua execução. É talvez uma ilustração musical da trajetória de um cavaleiro Cruzado, que com o auxílio de um feiticeiro evoca para si os poderes místicos dado aos soldados de Camelot, antes de ele viajar para conduzir o ofício sagrado a ele atribuído, que foi aceito e honrado para levá-lo a países distantes apenas para ver-se envolvido em muitas lutas, até que um embate o vê derrotado e morto por seu inimigo mouro.

A parte 3, A Catedral Submersa de Claude Debussy, também usada por Cuomo entre as duas partes de Night Tale, por possuir uma conotação musical diversa das demais, poderia à primeira vista parecer filosoficamente destoante das mesmas, não fosse pelos poderosos conceitos de plasmação e transmutação que apresenta na sua estruturação musical. Filosoficamente, os embates entre a Escuridão e a Luz carreiam, antes de mais nada, estes dois princípios fundamentais. A forma como foi apresentada por Cuomo em Night Tale parece sugerir que a alma do guerreiro morto poderia estar a encontrar seu descanso durante esse trecho.